CRIE INICIATIVAS DE INOVAÇÃO COM OS ODS

Para educadores e ecossistemas

Orientações para aplicar o guia em contextos educacionais e em ecossistemas de inovação.

Esta seção foi escrita para quem vai conduzir outras pessoas pelo processo: professores, coordenadores, facilitadores de oficinas e articuladores de ecossistemas de inovação. O conteúdo do guia funciona muito bem em sala de aula e em programas de formação, e aqui você encontra o roteiro para aplicá-lo com intencionalidade.

Por que este guia funciona na educação

A estrutura central deste material observar um problema real, conectá-lo a um ODS e transformá-lo em uma iniciativa testável é, na prática, uma metodologia ativa de aprendizagem. Ela coloca o estudante como protagonista, parte de problemas concretos do território e produz um resultado tangível ao final. Esse formato dialoga diretamente com abordagens como aprendizagem baseada em problemas, aprendizagem baseada em projetos e o pensamento de design (design thinking), amplamente utilizadas na educação contemporânea.

Mais do que ensinar sobre os ODS, o guia ensina a agir a partir deles. O estudante não apenas estuda a desigualdade, o desperdício de alimentos ou a mudança climática: ele observa onde esses temas aparecem na própria realidade e exercita a capacidade de propor caminhos. É um movimento que desenvolve autonomia, pensamento crítico e responsabilidade social.

Conexão com a BNCC e com o Novo Ensino Médio

Para escolas brasileiras, vale destacar que o trabalho com este guia mobiliza diversas competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Entre as mais evidentes:

  • Competência 2: pensamento científico, crítico e criativo: investigar problemas, formular hipóteses de solução e testá-las.
  • Competência 4: comunicação, expressar ideias e propostas com clareza, em diferentes formatos.
  • Competência 6: trabalho e projeto de vida, relacionar aprendizagem a possibilidades de atuação no mundo do trabalho e ao empreendedorismo.
  • Competência 7: argumentação, defender propostas com base em dados, evidências e na realidade local.
  • Competências 9 e 10: empatia, cooperação, responsabilidade e cidadania, agir pessoal e coletivamente com base em princípios éticos e na busca pelo bem comum.

No contexto do Novo Ensino Médio, reformulado pela Lei nº 14.945/2024, a estrutura prevê 3.000 horas ao longo dos três anos, sendo 2.400 horas de Formação Geral Básica e, no mínimo, 600 horas de Itinerários Formativos. Esses itinerários aprofundam quatro áreas do conhecimento: Linguagens e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, além da opção de Formação Técnica e Profissional, com implementação gradual a partir de 2025.

Nesse cenário, que valoriza o protagonismo do estudante, este guia se encaixa especialmente em Itinerários Formativos, em projetos integradores entre áreas e em componentes de Projeto de Vida e Empreendedorismo. Além de pode estruturar uma disciplina eletiva inteira, um projeto interdisciplinar ou uma mostra de iniciativas estudantis ao final do semestre.

Mapa-sugestão: ODS e áreas do conhecimento da BNCC

Trabalhar uma iniciativa a partir de um ODS quase nunca envolve uma área só. Esse é justamente o valor do material para o Novo Ensino Médio: ele favorece projetos interdisciplinares. A tabela a seguir ajuda o educador a identificar quais áreas do conhecimento dialogam mais naturalmente com cada ODS, facilitando o planejamento conjunto entre professores e a justificativa do projeto junto à coordenação. As marcações indicam sugestões de conexões mais próximas, outras são igualmente possíveis, conforme o recorte do problema escolhido e a abordagem de cada turma.

ODSLinguagensMatemáticaC. da NaturezaC. Humanas
ODS 1 · Erradicação da pobreza
ODS 2 · Fome zero e agricultura
ODS 3 · Saúde e bem-estar
ODS 4 · Educação de qualidade
ODS 5 · Igualdade de gênero
ODS 6 · Água potável e saneamento
ODS 7 · Energia limpa e acessível
ODS 8 · Trabalho e crescimento econômico
ODS 9 · Indústria, inovação e infraestrutura
ODS 10 · Redução das desigualdades
ODS 11 · Cidades e comunidades sustentáveis
ODS 12 · Consumo e produção responsáveis
ODS 13 · Ação contra a mudança do clima
ODS 14 · Vida na água
ODS 15 · Vida terrestre
ODS 16 · Paz, justiça e instituições
ODS 17 · Parcerias e implementação
ODS 18 · Igualdade étnico-racial

● sugestões de conexão entre o ODS e a área do conhecimento.

Sugestão de uso no planejamento: ao escolher um ODS com a turma, observe quais áreas do conhecimento podem dialogar com o problema escolhido usando a tabela como ponto de partida ou identificando outras conexões que façam sentido para o seu contexto e convide os professores a contribuir com conteúdo específicos. Um projeto sobre a ODS 11 (cidades), por exemplo, poderia reunir Geografia e Sociologia (Ciências Humanas), tratamento de dados de mobilidade (Matemática), impacto ambiental urbano (Ciências da Natureza) e a produção de uma campanha de comunicação (Linguagens) mas o recorte fica a critério de cada educador e da realidade da turma. É assim que uma única iniciativa estudantil pode mobilizar, de forma concreta, as competências da BNCC.

Roteiro sugerido para uso em sala (Ensino Médio e técnico)

A sequência abaixo é uma referência flexível. Pode ser comprimida em uma oficina intensiva ou distribuída ao longo de um bimestre. A carga horária indicada é uma estimativa.

EtapaFocoAtividadeTempo
Encontro 1Por que inovar a partir de problemasApresentar a lógica problema solução. Discutir exemplos do cotidiano da turma. Introduzir os ODS.2 h
Encontro 2Identificar problemas reaisSaída de campo ou observação do entorno. Aplicar o Filtro de Relevância a problemas levantados.2 a 3 h
Encontro 3Escolha do ODS e do problemaCada grupo escolhe um ODS e delimita um problema local específico (lugar, pessoas, frequência).2 h
Encontro 4Solução e PropostaPreencher os blocos Problema, Solução e Proposta do TECIS Canva. Frase-síntese da proposta.2 h
Encontro 5ValidaçãoTestar a proposta com colegas, familiares ou a comunidade (formulário, conversa, grupo).2 a 3 h
Encontro 6Viabilização e apresentaçãoFechar o Canva, organizar responsabilidades e apresentar a iniciativa (o pitch, uma apresentação curta e objetiva) para a turma ou para uma banca.2 a 3 h

Sugestões de organização de como organizar encontros e oficinas.

Como avaliar (rubrica simples)

Em projetos de inovação, o resultado final importa menos do que a qualidade do raciocínio percorrido. Em outras palavras, não se trata de avaliar se a ideia do estudante “daria certo” no mercado, mas se ele soube observar um problema real, conectá-lo a um objetivo, propor um caminho e testá-lo com clareza. A rubrica abaixo (uma tabela que organiza os critérios de avaliação) ajuda a dar nota e, principalmente, a oferecer devolutivas que apoiem o aprendizado. Avalie cada critério em três níveis, conforme a descrição de cada coluna.

CritérioEm desenvolvimentoAdequadoAvançado
Clareza do problemaO problema é genérico ou vago, sem definir lugar, público ou frequência.O problema é compreensível, mas falta precisar lugar, público ou frequência.O problema é específico, com lugar, público e frequência bem definidos.
Conexão com o ODSA relação com o ODS é frágil ou não fica clara.Há relação com o ODS, mas a justificativa é superficial.A relação entre o problema e o ODS é coerente e bem justificada.
Coerência da soluçãoA solução não responde ao problema ou é irrealista.A solução responde ao problema, mas com pontos pouco realistas.A solução responde diretamente ao problema e é realista para o contexto.
Qualidade da validaçãoNão houve teste real com pessoas.Houve algum teste, mas sem registro do que se aprendeu.Houve teste real e o grupo registrou o que aprendeu (manter, ajustar, descartar).
Viabilidade e sustentaçãoNão fica claro o que é preciso para a proposta funcionar ou se manter.A proposta indica recursos, mas a sustentação ainda é frágil.A proposta indica recursos mínimos, responsáveis e uma forma plausível de se manter.
ComunicaçãoA apresentação é confusa ou incompleta.A apresentação é clara, mas pouco organizada ou convincente.A iniciativa é apresentada de forma clara, organizada e convincente.

Sugestões de rubrica para avaliação.

Uso em ecossistemas de inovação

Um ecossistema de inovação é o conjunto de pessoas e instituições que apoiam quem quer empreender ou criar soluções como hubs e incubadoras (espaços que abrigam e orientam novos negócios), secretarias de desenvolvimento, universidades, coletivos e programas de aceleração (iniciativas que ajudam projetos a crescer). Todos eles compartilham um desafio: transformar muitas ideias soltas em iniciativas consistentes, comparáveis e sustentáveis. É aí que este guia pode atuar como uma linguagem comum. Quando diferentes projetos são descritos da mesma forma partindo de um problema real, passando pela validação e chegando à viabilização, fica muito mais fácil orientar, selecionar e acompanhar iniciativas. A seguir, detalho como cada tipo de organização pode incorporar o material à sua rotina.

Linguagem comum entre projetos: adotar o TECIS Canva como modelo único faz com que todas as iniciativas de um programa sejam descritas e comparadas da mesma maneira. Isso reduz ruído na comunicação, facilita o trabalho de mentores e permite que pessoas de áreas diferentes entendam rapidamente qualquer projeto. Em vez de cada empreendedor apresentar sua ideia de um jeito, todos falam a mesma língua.

Seleção de projetos para editais e chamadas: o Filtro de Relevância e os cinco blocos do Canva podem servir como critérios iniciais para escolher quais projetos avançam em um edital ou chamada pública. Eles ajudam a separar, logo de início, as ideias ancoradas em problemas reais daquelas que ainda são apenas intenções economizando tempo da banca avaliadora e tornando a seleção mais justa e transparente.

Oficinas iniciais de amadurecimento: antes de qualquer investimento, vale conduzir os empreendedores do problema até a validação. Uma oficina curta usando o método deste guia ajuda cada participante a sair de uma ideia vaga para uma proposta testada com pessoas reais. Isso aumenta muito a qualidade dos projetos que seguem adiante e reduz o risco de investir em soluções que ninguém precisava.

Conexão entre território e ODS: mapear, junto à comunidade, quais ODS concentram mais problemas em um território permite orientar as convocatórias de novos projetos para onde elas realmente importam. Em vez de pedir “inovação” de forma genérica, o ecossistema passa a chamar soluções para desafios concretos e locais o que costuma gerar projetos mais relevantes e com mais chance de adoção.

Como o guia se encaixa na jornada de um ecossistema

1. MAPEAR Identificar, com a comunidade, quais ODS concentram problemas no território.2. CONVOCAR Lançar chamadas orientadas a esses problemas reais, com linguagem comum.3. AMADURECER Conduzir os projetos do problema à validação em oficinas iniciais.4. SELECIONAR Usar o Filtro de Relevância e o Canva para escolher o que avança.

O ciclo se repete: cada nova rodada parte dos problemas do território e devolve soluções testadas a ele.

Em todos os casos, o princípio é o mesmo que orienta este guia: começar pequeno, ancorar a iniciativa em um problema real e estruturar o caminho antes de escalar. Um ecossistema saudável não é o que tem mais projetos, mas o que conduz cada iniciativa com clareza do problema à solução que se sustenta. Alguns pontos que podem ser considerados:

  • Linguagem comum: adotar o TECIS Canva como modelo único para que diferentes iniciativas sejam descritas e comparadas da mesma forma.
  • Triagem de editais: usar o Filtro de Relevância e os cinco blocos como critérios iniciais de seleção de projetos.
  • Oficinas de pré-aceleração: conduzir empreendedores do problema à validação antes de qualquer investimento.
  • Conexão território-ODS: mapear, junto à comunidade, quais ODS concentram mais problemas no território e orientar chamadas de inovação a partir disso.

Em todos os casos, o princípio é o mesmo que orienta este guia: começar pequeno, ancorar a iniciativa em um problema real e estruturar o caminho antes de escalar. Vale dizer que este material não pretende substituir metodologias que cada ecossistema já utiliza, sejam abordagens consagradas ou desenvolvidas internamente. Ao contrário: ele pode somar a elas, oferecendo uma porta de entrada simples para as etapas iniciais, uma linguagem comum entre projetos ou um complemento aos processos que já funcionam. Cada organização pode incorporar o que faz sentido para a sua realidade e deixar o restante de lado. Um ecossistema saudável não é o que tem mais projetos, mas o que conduz cada iniciativa com clareza do problema à solução que se sustenta.